A medicina que aprendeu a usar as tecnologias mas que ainda não sabe apresentá-la aos pacientes

Dias atrás acompanhei um amigo que precisou ser atendido num pronto atendimento cardiológico na cidade.
O atendimento médico foi relativamente rápido e bem conduzido. Nenhuma queixa.
Os “problemas” começaram na etapa seguinte, quando a colega indicou que meu amigo colocasse um aparelho de Holter para monitorar seu quadro. Fomos orientados a aguardar até que a liberação do convênio pudesse ocorrer.
Após cinqüenta minutos, meu amigo foi chamado para uma sala, onde uma funcionária solicitou-lhe que tirasse a camisa e, rapidamente, passou a lhe cortar os pelos do peito com um aparelho de barbear. Enquanto realizava sua tarefa rotineira, a funcionária foi então passando as instruções sobre o uso do aparelho com a naturalidade de quem comentava sobre o clima: “O sr. não vai poder usar celular, notebook, tablet, nem telefone sem fio ou controle remoto de TV…”. Sua missão havia terminado cinco minutos depois, enquanto meu amigo me contava, perplexo, sua nova condição de “exilado tecnológico” por 24 horas.
O pequeno-grande contratempo que não havia sido previsto era que este paciente estava sozinho na cidade, sua mulher estava viajando e, até ali, ele estava se comunicando normalmente com ela pelo celular.
Cinqüenta minutos de espera não foram suficientes para que toda uma equipe de profissionais de saúde comunicasse com antecedência um procedimento e suas consequências na vida diária do paciente. Consequências talvez não inteiramente dimensionadas por estes profissionais e que tem relação direta com a onipresença das tecnologias em nosso dia-a-dia.
Meu amigo precisou montar toda uma estratégia para conseguir – já com o Holter instalado – avisar sua esposa, através do celular de uma outra pessoa. Por sorte ele havia anotado num papel, antes de sair de casa, o telefone fixo de um amigo que o estava esperando para almoçar, caso contrário não conseguiria ligar para ele já que não tinha acesso à sua agenda. Mais: seu plano de telefonia fixa não previa ligações interurbanas e ele, obviamente, não poderia usar o Skype via tablet para falar com a esposa que estava noutra cidade. Ao chegar em casa, descobriu que sua smart TV não era assim tão “smart” pois não havia nenhuma maneira de conseguir ligar a TV sem usar o controle remoto. Resultado: por 24 horas meu amigo foi efetivamente um “exilado tecnológico” em sua própria casa.
Talvez se a equipe que o atendeu tivesse aproveitado os cinqüenta minutos de espera para lhe passar todas as instruções sobre o aparelho e as restrições indicadas ele poderia ter tomado algumas providências, feito seus contatos, avisado a esposa com tranqüilidade etc.
Uma situação simples e banal como essa ilustra muito bem como a medicina moderna já incorporou totalmente o uso de recursos tecnológicos, dispositivos etc, infelizmente não sabendo ou não se dispondo a apresentar esses mesmos recursos aos pacientes que vão utilizá-los e que são os principais interessados. Há lacunas básicas ainda a serem preenchidas antes de avançarmos no emprego de tecnologias na saúde. Novos médicos, como a colega que atendeu meu amigo, podem até estar convivendo normalmente com todo tipo de tecnologia em suas vidas pessoais e profissionais mas isso não significa, necessariamente, que estejam conseguindo compartilhar com seus pacientes essa nova realidade. Estão desperdiçando muito mais do que cinqüenta minutos passados numa sala de espera.

2 comentários sobre “A medicina que aprendeu a usar as tecnologias mas que ainda não sabe apresentá-la aos pacientes

  1. Acho que houve algum engano nessas orientações. Trabalho com Holter há mais de 20 anos e não conheço nenhuma interferência destes dispositivos enumerados no artigo…

    • As orientações citadas foram passadas pela funcionária que colocou o dispositivo. Nenhuma orientação por escrito foi dada. Se as interferências nem sequer existem, pior ainda…o paciente seguiu à risca sem necessidade…

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